De Lisótima para Natalinda

O Jornal de Hoje - Coluna Hoje na Economia, Quarta-feira, 03 de fevereiro de 2010.

Publicado em  12 de janeiro de 2010

 A coluna abre espaço para a publicação de artigo do advogado e economista Esequias Cortez, no qual ele defende uma aproximação maior entre Natal e Lisboa e mostra o Rio Grande do Norte e Portugal como poten­ciais portas de entrada para os europeus no Brasil e para os brasileiros na Europa.

Esequias  Pegado Cortez Neto

Advogado e Economista

        Eu tinha um sonho. O sonho de ver a cidade em que nasci, Natal, desenvolvida, organizada, geradora de bem estar aos seus habitantes, tranquila e segura para se viver. Não gostava daquela cidade dos anos 50 e 60 em que nela fui criança e adolescente. Achava-a pro­vinciana, sem oportunidades de estudo e trabalho para os seus filhos, assim  os obrigando dela sair em busca de vida melhor. Era uma cidade em que os sobrenomes se repe­tiriam eternamente, como a história comprova. Não era boa. E isto mudou, sem dúvidas.  

Aquela cidade, que muitos dela têm saudades e, por­tanto, devem ser respeitados, não era a cidade para mim. Justifico a minha dúvida, hoje inexistente. Fui criado ou­vindo do meu pai "cidade boa é aquela em que se vive bem e onde pode ser criada a sua família".  

Mas os anos 70 e seguintes fizeram a nossa Natal melhorar e crescer, assim como o Rio Grande do Norte, seguramente frutos das mudanças do estilo de governo iniciadas nos anos 60 que, com raras exceções, tiveram continuidades nos seguintes, cada um com sua forma espe­cífica de ser.  

Então apalavra GRANDE do nosso Estado parece ter começado a fazer a diferença. Nasceu, entre muitos outros, o Projeto do Aeroporto de São Gonçalo do Amarante, vol­tado para unir o Brasil e a América Latina com a Europa, um dos nossos berços como pátria. Lá, bem longe que vai se tornar cada vez mais perto, naquela cidade chamada Lis­boa, num país chamado Portugal que, olhando-o inverti­damente é o Rio Grande do Norte em relação ao país bra­sileiro e ao continente latino-americano. Portugal, se recor­rermos e forçarmos nossa imaginação abstrata, é um ele­fante tal como o Rio Grande do Norte, ambos com os cos­tados e as traseiras voltadas ao Oceano Atlântico, o primei­ro em pé e fincado no continente europeu — que não lhe permite definir bem as formas — e o segundo como se an­dando sobre a nossa pátria, na busca de representar toda a América Latina, como o Aeroporto lhe permitirá.

          Pensando assim, para o futuro e talvez não para mim, há três anos, tal como os portugueses o fizeram há cerca de 500 anos, talvez numa viagem de volta, aportei minha nau advocatícia num porto, que espero também seguro. Nesse aspecto, o profissional, ainda o estou examinando pois aqui é um começar tudo de novo. Não é fácil e re­quer tempo, entre outros atributos. Entretanto, não nave­guei para cá por acaso aqui não aportei por conta “de ventos inesperados que desviaram Pedro Álvares Cabral e o fizeram chegar às terras de Santa Cruz, depois cha­mada Vera Cruz e, por fim, Brasil”.

        Não o fiz também para descobrir parte das minhas origens, até porque sou consciente de que, apesar da minha brancura, tenho também sangue negro e índio cor­rendo nas veias. E me orgulho disto, pois isto me deu visão sistêmica, comum aos brasileiros — o que certamente lhe permite o jeitinho de fazer curvas quando um problema insolúvel se depara — e não obrigatoriamente car­tesiana, ou seja, isto não pode e não pode e é assim mesmo, não se muda. E aí surgem os meus porquês.

        Pois bem. Aqui, na Lisboa que aprendi a chamar de Lisótima, encontrei uma cidade antiga que se moderni­za, num país que nos achou à europeização e que hoje é parte da forte União Européia, melhor dizendo, dos Es­tados Unidos da Europa, na expressão mais literal e técnica do termo. Lisboa, cujo primeiro nome foi Olissipo, ainda no tempo romano de mais de dois mil atrás, vem se transformando numa cidade de ótimas características urbanas, que permite uma vida saudável e, principalmen­te, mantém um nível de segurança pública e social exce­lentes. Aqui se anda na rua como se fazia em Natal lá nos anos 50 e 60 e hoje não se pode mais. Aí somos assaltados e estamos sendo obrigados a ficar escorraçados dentro de casa, casa que vira nossas prisões! Que coisa sem sentido!!!

         E ninguém venha me dizer que a violência de Natal está nos bairros periféricos, porque afirmo não estar dizendo a verdade. Ela está em todos os lugares e nos envolve a todos e se alastra pelas praias e municípios do Estado. Lembro o que ocorreu, por exemplo, como meu amigo Paulo de Tarso Fernandes, vendo a noticia pelos jornais in­terneteiros. O caso aconteceu com ele, mas isto poderia ser com cada um de nós. Foi como se fosse comigo.  

E assim me fiz diversas questões, que torno públi­cas, na qualidade de ex-secretário de Planejamento do Estado e de Natal, além de professor de Planejamento Governamental na UFRN, por tantos anos, e na qual completei o meu tempo de serviço no magistério: por que o Governo do Estado e os Governos Municipais não colocam a segurança do cidadão como prioridade governamental número um? Será que vão ficar o tempo todo culpando o passado ou pondo o ônus sobre o Go­verno Federal? Por que há pessoas que querem ser go­verno e não cumprem com suas obrigações e, mais das vezes, apenas querem ocupar o poder, pelo ter poder para sê-lo? Provoco-as pelo ônus de o serem nesta hora difícil em que aí vivemos.

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